21.11.06

O outro Miles


Fui dormir pensando em escrever um artigo sobre o feriado da Consciência Negra e a última pesquisa da Organização Internacional do Trabalho - OIT, sobre as desigualdades entre brancos e negros, divulgada semana passada. Como várias vezes ocorre comigo, acordei com este texto pronto. Bastou pegar o bloquinho, que vive ao lado da cama, e anotar.

Me vi na coxia do Tuca, após praticarmos nosso exercício de canto. Ao fundo tocava "Dr. Jekyll", de Miles Davis. Quando percebi o corpo negro de Rubem, se despindo ao meu lado, foi amor fulminante. Acho que o namoro começou ali, mesmo sem ele saber de nada. Ensaiamos até tarde naquele sábado e, como de costume, fomos para a casa do Edu tocar violão e comer macarrão. Como sermpre fazia, fui até a cozinha e comecei a preparar minhas clássicas caipirinhas. Pedi para o Rubem pegar o açucar e, ao trazê-lo, nos beijamos. Depois desse beijo não nos largamos mais. Consegui sentir o cheiro do limão cravo enquanto ouvia o samba de Noel, que tocou naquela cena. Comecei a cantar pensando por onde andarás você Rubem?

Lembrei-me também que amo Hip Hop, Paula Lima e feijoada. Esta iguaria afrobrasileira é meu prato preferido. Começo a desejá-la desde a compra dos ingredientes, a escolha do feijão preto, o fatiar da laranja. Do Rubem saltei para Miles, um negro lindo que conheci em 2002. Estava eu perdida em Nova Orleans, andando de bar em bar, pois aquela cidade respira jazz até no Burger King. A cada casa um novo som. Resolvi sentar no bar. Tinha andado uns 20 quarteirões. Quando o vi, cantando "Baby, Won´t You Make up Your Mind" me apaixonei imediatamente. No intervalo, Miles veio até o bar e me pagou um martini. Conversamos, ele conhecia o Rio de Janeiro, adorava Noel e já tinha experimentado a feijoada da Mangueira. Soube a história do seu nome, Miles, em homenagem ao outro Miles, que também amo de paixão.

Depois, ele voltou para o palco e tocou novamente "Baby, Won´t You Make up Your Mind". Saí andando feliz. Nunca mais o vi, mas cada vez que ouço Miles, me lembro de ti e daquela noite mágica.

2 comentários:

ana pan disse...

Polly querida!!! que texto magnífico!

Tomei vergonha na cara e criei um blog... estou me deliciando desde ontem... qdo der, passa por lá... http://dapanzani.blogspot.com

Te adoro, muito... saudades mil...

Anônimo disse...

Essa foto de Miles Daves que ilustra seu texto leve e bem amarrado figura, em forma de poster, em um bar daqui de Brasília. É o 2º Clichê, na Asa Norte. Have a nice day.